Flagrante mostra perereca resistindo a ataque de cobra em Macaé, RJ
24/02/2026
(Foto: Reprodução) Flagrante mostra perereca resistindo a ataque de cobra em Macaé, RJ
O que era para ser mais um episódio comum da cadeia alimentar acabou virando um registro raro e surpreendente. Em uma área de brejo em Macaé (RJ), uma perereca-de-capacete-de-manchas-negras (Trachycephalus nigromaculatus) resistiu a uma tentativa de predação por uma cobra-d'água (Erythrolamprus miliaris) e saiu viva da investida.
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A cena, inédita em vídeo, foi registrada pelo herpetólogo Henrique Nogueira durante trabalho de campo e ajuda a revelar mecanismos pouco conhecidos de defesa desses animais.
O flagrante aconteceu em um momento especial: um período de chuvas intensas, quando dezenas de pererecas se concentravam em um mesmo ponto para um evento conhecido como reprodução explosiva.
Flagrante mostra perereca resistindo a ataque de cobra em Macaé, RJ
Henrique Nogueira
O brejo onde tudo ocorreu fica próximo a um canal de irrigação artificial, às margens de um fragmento florestal – um ambiente modificado, mas que ainda assim é bem ocupado tanto pela perereca quanto pela cobra d'água.
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O embate no brejo
A interação foi percebida quando um macho da perereca chamou atenção ao se contorcer na parte rasa do brejo, em meio à vegetação. Ao se aproximarem, Henrique e sua equipe notaram que o animal estava sendo mordido por uma serpente. O confronto durou cerca de 10 minutos.
“A cobra inicialmente mordeu o flanco da perereca e insistiu no ataque, tentando reposicionar a presa para engoli-la. Em um dado momento, chegou a morder a cabeça do anfíbio – passo crucial para a ingestão. Mas, de forma inesperada, a serpente soltou a perereca e interrompeu o ataque”.
Apesar de ter escapado da predação, a perereca não saiu ilesa. O animal apresentava lesões superficiais na pele, compatíveis com cortes provocados pela mordida, mas sem ferimentos profundos ou sinais de maior comprometimento.
Perereca-de-capacete possui crânio ossificado que funciona como uma verdadeira armadura e dificulta a manipulação da presa pelo predador
Henrique Nogueira
A cobra-d’água, por sua vez, também pode ter sofrido efeitos temporários após o contato com a secreção liberada pelo anfíbio.
“No momento em que ela solta a perereca, passa a balançar a cabeça repetidamente, com a boca aberta, o que sugere uma irritação intensa das mucosas”, explica Henrique. Segundo ele, no entanto, não é possível quantificar o grau da intoxicação nem seus efeitos posteriores apenas a partir da observação em campo.
Por que a cobra desistiu?
Segundo Henrique Nogueira, dois fatores principais explicam o fracasso da predação. O primeiro é mecânico: diferentemente de muitas outras pererecas, espécies desse gênero possuem um crânio bastante ossificado.
“Essa característica funciona como uma verdadeira armadura e dificulta a manipulação da presa pelo predador”.
Cobra-d’água pode ter sofrido efeitos temporários após o contato com a secreção liberada pelo anfíbio
Henrique Nogueira
O segundo fator é químico, e talvez ainda mais decisivo. Essa perereca libera pela pele uma secreção rica em proteínas e peptídeos com efeitos citotóxicos e altamente irritantes, especialmente para mucosas. No momento em que a cobra mordeu a cabeça do anfíbio, entrou em contato direto com essa substância.
A reação foi imediata: a serpente soltou a perereca e passou a balançar a cabeça com a boca aberta, visivelmente incomodada, como se tentasse se livrar do que havia entrado em contato com sua mucosa oral.
Defesa química que também afeta humanos
De acordo com o herpetólogo, a secreção cutânea de Trachycephalus nigromaculatus pode causar ardência nos olhos, náuseas e vômitos em humanos.
Apesar de ter escapado da predação, a perereca teve lesões superficiais na pele
Henrique Nogueira
“Por isso, sempre alertamos que a espécie nunca deve ser manipulada sem luvas e sem as devidas autorizações ambientais”.
No caso do flagrante em Macaé, tudo indica que a combinação entre a cabeça ossificada e a secreção tóxica foi decisiva para a sobrevivência da perereca.
Um registro inédito e valioso
Embora já existam relatos de predação envolvendo outras espécies do gênero Trachycephalus, essa é a primeira vez que a interação entre essas duas espécies específicas é documentada e filmada, segundo o pesquisador. Para Henrique, isso não significa que o evento seja extremamente raro, mas sim que observações como essa dependem de estar “no lugar certo e na hora exata”.
“Observações de história natural são fundamentais para entendermos melhor a vida dos animais. Muitas interações ficam apenas no campo da suposição. Registros assim ajudam a esclarecer as nuances das relações entre predador e presa”, explica o herpetólogo.
Perereca-de-capacete libera pela pele uma secreção rica em proteínas e peptídeos com efeitos citotóxicos e altamente irritantes
Henrique Nogueira
O flagrante não só amplia o conhecimento sobre dieta e comportamento das serpentes, como também reforça o papel das defesas químicas e estruturais dos anfíbios – estratégias silenciosas, mas extremamente eficazes, que podem fazer toda a diferença entre virar alimento ou voltar vivo para o brejo.
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